12 de set. de 2012

Veja a programação sobre os 25 anos do acidente com o césio-137, em GO

Palestras, culto e exposições vão relembrar a tragédia, em Goiânia e interior. G1 publica esta semana série de reportagens sobre o assunto.

Remoção de lixo radioativo de área contaminada pelo césio-137, em Goiânia, Goiás (Foto: Carlos Costa/ O Popular)

Remoção de lixo radioativo de área contaminada
pelo césio-137 (Foto: Carlos Costa/ O Popular)

Uma série de eventos neste mês de setembro relembra os 25 anos do acidente com o césio-137, em Goiânia. Palestras, exposições e exibição de filmes vão retratar e discutir, na capital e no interior de Goiás, o maior acidente radiológico -  que envolve uma fonte radioativa usada em hospitais - do mundo, segundo a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). Os eventos começam nesta quarta-feira (12) e seguem até o próximo dia 28 (veja programação abaixo).

Desta quarta até sexta-feira (14), o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), onde está o depósito definitivo dos rejeitos radioativos, em Abadia de Goiás, será aberto à visitação. Quem for ao local encontrará estandes com apresentação sobre medicina nuclear, educação ambiental e prevenção de acidentes com agentes químicos, biológicos e nucleares. A visita poderá ser feita das 8h às 17h.
Na quinta-feira (13), o Centro de Assistência aos Radioacidentados (Cara) e a Associação das Vítimas do Césio 137 (AVCésio) promovem um culto ecumênico em memória dos atingidos. A celebração religiosa será às 8h, na praça que recebe o nome da primeira das quatro pessoas a perder a vida, na época, por causa da radiação: Leide das Neves Ferreira.
A menina morreu aos seis anos após ingerir pó radioativo e virou símbolo da tragédia. A praça fica na Rua 16-A, nº 792, Setor Aeroporto, em Goiânia.

Segundo o presidente da AVCésio, Odesson Alves Ferreira, cerca de mil pessoas, que foram direta ou indiretamente afetadas pelo césio, foram convidadas. "É um culto em memória das quatro pessoas que morreram na época e das dezenas que faleceram de lá para cá", disse. Odesson explicou que a associação não pode atribuir todas as mortes ao acidente, mas também não pode descartar, pois grande parte delas sofreu depressão. O presidente também afirma que não há um estudo aprofundado sobre a relação da tragédia com a causa das mortes dos envolvidos.
Palestras
A Universidade Estadual de Goiás (UEG) elaborou uma programação de palestras nas unidades de Caldas Novas, no sul do estado, e Ceres, no centro goiano. Os temas incluem a história do acidente e os benefícios da energia nuclear.

No dia 27 de setembro, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) preparou um dia inteiro de palestras, debates e mesa-redonda com depoimentos de radioacidentados e de autoridades que trabalharam na descontaminação e na assistência às vítimas. O evento, no Centro Cultural Oscar Niemeyer, fará também uma homenagem às vítimas.

"O evento é para chamar a atenção dos mais jovens, que não presenciaram os fatos, para que essa data não seja esquecida por ninguém. É também uma forma de compartilhar o conhecimento", disse ao G1 o secretário de Saúde de Goiás, Antônio Faleiros, que ocupava o mesmo cargo na época do acidente.

Memória
A tragédia que marcou a história do estado teve início no dia 13 de setembro de 1987, quando dois jovens catadores de materiais recicláveis abriram um aparelho de radioterapia, em um prédio público abandonado, no Centro de Goiânia, para vendê-lo. Dentro do objeto, havia uma cápsula contendo o metal radioativo césio-137, que provocou a contaminação de centenas de pessoas e a morte de quatro delas, número oficialmente reconhecido pela União e governo do estado.

Na semana em que se comemoram os 25 anos do acidente, o G1 publica série de reportagens sobre a tragédia

Do G1 GO

Mãe da menina símbolo da tragédia com o césio-137 diz se sentir culpada

Pela primeira vez, Lourdes das Neves fala sobre sentimento de culpa.
Criança ingeriu partículas de pó de césio, acidentalmente, e foi a 1ª vítima.

Versanna CarvalhoDo G1 GO

Leide das Neves, 6 anos, foi a primeira vítima do césio-137 (Foto: Reprodução / TV Anhanguera)Leide das Neves, 6 anos, foi a primeira vítima do césio-137 (Foto: Reprodução / TV Anhanguera)

A dona de casa Lourdes das Neves Ferreira, mãe de Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, que morreu em 23 de outubro de 1987, sofre com a falta da filha, quase 25 anos depois da sua morte. Ela conta que se sente culpada pela morte da menina, a primeira vítima do acidente com o césio-137 em Goiânia , e uma das quatro mortes oficiais, segundo os governos estadual e federal. O sofrimento da garotinha que se encantou com o brilho azul emitido pelo césio se tornou o símbolo da tragédia. “Fica passando um filme na minha cabeça. São 25 anos de sofrimento, de dor, de tristeza e de angústia. Eu me arrependo e cobro de mim mesma. Se eu não tivesse ido tomar banho, talvez ela não tivesse ingerido [partículas de pó do césio]”, afirma Lourdes.

Tudo começou com a retirada de um equipamento de radioterapia para o tratamento de câncer. O aparelho foi esquecido dentro de um prédio abandonado, onde funcionava uma clínica de radiologia, no Centro de Goiânia. Levada para um ferro-velho, a peça foi desmontada a marretadas. A cena foi reproduzida várias vezes em filmes e programas de TV.

O objetivo do dono do ferro-velho era aproveitar o metal, mas a descoberta de um pó dentro do equipamento, que brilhava à noite, chamou a atenção de muita gente, inclusive de crianças. A situação de Leide foi ainda pior porque, ao fazer um lanche depois de brincar com a novidade, acabou ingerindo, acidentalmente, partículas do pó misturadas ao alimento. Isso aconteceu longe dos olhos da mãe.

As mortes ocorreram poucas semanas depois da descoberta do que passou a ser considerado o maior acidente radiológico do mundo -- com uma substância radioativa usada em hospitais. Leide, a tia dela, Maria Gabriela, e dois funcionários do ferro-velho foram as vítimas que não suportaram os efeitos da radioatividade.

Os corpos das quatro primeiras vítimas do césio-137 estão enterrados em um cemitério municipal de Goiânia, o Cemitério Parque. Os túmulos têm mais que o dobro do tamanho dos outros. Debaixo do mármore, existem toneladas de concreto. Cada caixão pesava cerca de quinhentos quilos. Tudo isso para bloquear a emissão de material radioativo.

Os túmulos estão em um canto do cemitério, em um local bastante tranquilo, bem diferente daquele dia do enterro, quando uma multidão protestava contra a decisão de enterrá-los em um cemitério comum. “Eu estava dopada com remédios, mas vi tudo. As pessoas jogavam pedra, jogando pedaço de meio-fio”, recorda-se Lourdes.

Uma parte da minha vida se foi com ela"

Lourdes das Neves

Apesar do tumulto, prevaleceu a vontade da maioria e o enterro não mudou de lugar. Se tivesse sobrevivido, Leide estaria hoje com 31 anos de idade. “Uma parte do meu coração e da minha vida se foi com ela. A forma como tudo aconteceu foi uma coisa louca, dolorosa. Só eu mesma para saber. Não desejo que isso aconteça com ninguém”, conta a mãe. Ela diz ainda que não consegue passar um único dia sem se lembrar da filha e da tragédia vivida por sua família. “Não tem como não lembrar” (assista abaixo à entrevista na íntegra).

Lourdes também perdeu o marido na tragédia. Ivo Alves Ferreira morreu 16 anos depois do acidente radioativo. Ele carregava o arrependimento por ter levado para casa o pó do césio para a filha brincar. O irmão de Ivo, Devair Alves Ferreira, que era dono do ferro-velho onde a peça foi aberta, morreu sete anos depois da tragédia, em 1994. Na época, quando ainda passava pela descontaminação, ele falou sobre a tragédia provocada pela luz hipnotizante. “Eu só me sinto triste porque de uma forma ou de outra eu prejudiquei toda a minha família”, disse Devair à TV Globo, em outubro de 1987.

Um dos irmãos de Devair e Ivo e atual presidente da Associação das Vítimas do Césio (AVCésio), Odesson Alves Ferreira cita uma frase dita por Devair que marca o episódio: "Eu me apaixonei pelo brilho da morte”.

Na opinião de Odesson, os irmãos Devair e Ivo sobreviveram à tragédia, mas não conseguiram superá-la. “Os dois entraram em um processo de depressão. O Devair se sentia responsável por ter colocado toda a família naquela situação. O Devair se embrenhou pelo caminho dos vícios. O da bebida, principalmente", lamenta, em entrevista ao G1.

Já Ivo, afirma Odesson, se culpava por ter levado o pó de césio para casa e deixado a filha brincar com ele. "O Ivo fumava seis maços de cigarro por dia. É uma maneira que eles [Ivo e Devair] encontraram de se suicidar. Eles viam que estavam morrendo lentamente e continuavam fazendo. Tentamos muito tirar o vício dos dois, mas não conseguimos. Eles achavam que tinha que ser daquele jeito e acabou sendo. Eles morreram muito jovens. Devair morreu em 1994, aos 42 anos, e Ivo, em 2003, aos 54”, conta Odesson.

Odesson Ferreira mostra as sequelas visíveis do contato direto com o Césio-137, em Goiânia (Foto: Versanna Carvalho/G1)

Odesson mostra as sequelas do contato com o
césio (Foto: Versanna Carvalho/G1)

Marcas
Da mesma forma que muitas das pessoas que manusearam o césio, Odesson, que só ficou com o pó do césio por cerca de dois minutos, carrega na mão sinais de contato com o material. “Além da palma da mão, que eu perdi [mostra pele mais escura, resultado de um enxerto com parte da pele da barriga], perdi parte de um dedo e outro ficou atrofiado”, mostra.

Maria Abadia Ferreira -- mãe de Odesson, Devair e Ivo -- viu a família inteira ser contaminada, inclusive ela. “Eu não gosto nem de lembrar. É tanta coisa, é muito duro. A minha família foi a mais atingida”, lamenta.

Odesson conta que até hoje a família não se refez completamente. “Uma coisa que dói muito na gente é o afastamento, principalmente da família. A nossa família era muito próxima, gostava de se reunir para fazer um almoço, um churrasco. Hoje é muito ruim. As pessoas não podem mais juntar porque o assunto fica desagradável. A gente não consegue fazer um almoço de família sem tocar no assunto. E isso dói muito”, desabafa.

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