2 de abr. de 2016

O que queremos para nossos filhos

Uma das tarefas mais complexas e de maiores exigências hoje é a de educar um ser humano, principalmente em virtude de tanta informação à disposição e maneiras cada vez mais simples de obtê-las. Por se tratar de um processo que envolve as emoções, valores sociais e, principalmente, nossas ações cotidianas, nossa educação é influenciada e quase sempre reflete as práticas que a sociedade expõe às suas crianças.
Assim, nossos exemplos e gestos, desde a forma de vestir e conversar até a maneira como nos expressamos e os ambientes que frequentamos, são fatores influenciadores na formação intelectual e definição da identidade dos nossos filhos. As instituições, comunidades e pessoas próximas delineiam diariamente todos os aspectos da vida das nossas crianças, inclusive na sua sexualidade em formação.
Por enxergar isto é que aos poucos, durante as últimas décadas, organizações internacionais e nacionais têm estimulado modificações não apenas nas legislações, mas na execução de políticas públicas, instrumentalizando os direitos humanos. E, no caso brasileiro, a última e uma das mais audaciosas tentativas tem sido a inclusão da expressão “gênero”, de forte teor e enfoque ideológico, nos Planos Municipais e Estaduais de Educação, legislação que define as prioridades do modelo educacional para os próximos dez anos.
Por mais que se tente negar, o objetivo da ideologia de gênero é muito claro e específico: interferir na construção da identidade sexual das crianças totalmente fora do controle dos pais, seguindo algo que já se tenta fazer em países europeus. Implementar um modelo que recomenda à escola não distinguir os alunos em meninos ou meninas, desconsiderando as diferenças reais e óbvias entre homens e mulheres, e buscando anular as aptidões naturais de cada sexo.
Por esta razão minha inquietação não é apenas de homem público já que, com três filhos em idade escolar, sei que as crianças vivenciam um processo de aprendizagem cada vez mais rápido e a construção da identidade é uma das maiores preocupações, tanto para a escola quanto para família. E neste ponto encontra-se outra grave questão dessa tentativa, que quer renegar o papel da família – estabelecido inclusive constitucionalmente – desconsiderando a responsabilidade do núcleo familiar nesse processo e tratando como normalidade algo que não o é em nosso país.
A família é a célula mãe da sociedade, única e diferente de qualquer outro grupamento humano por se tratar da nossa esfera social introdutória, em que vivemos a maior parte da nossa existência e que possui laços indissolúveis. O afastamento do núcleo familiar da formação dos próprios filhos, ou mesmo a competição de conceitos com a educação recebida na escola não é o caminho para a construção de uma sociedade melhor e mais justa.
Não se impõe algo dessa natureza sem o conhecimento da população sobre o seu conteúdo, ainda mais num assunto que há anos vem sendo tratado em um controverso processo que passa inclusive por um jogo de “esconde-esconde” político-ideológico que apenas faz mal ao cidadão. Que a nossa sociedade tenha toda clareza do que se trata e possa discutir com seriedade antes que o poder público adote um modelo que propõe, entre outras coisas, que até o banheiro seja compartilhado por ambos os sexos, sem diferenciações.
Além da tentativa de desconstruir o fator biológico, determinante na construção de homens e mulheres como seres humanos, essa linha ideológica com sua ênfase no individual e no hedonismo ignora a importância de outros valores imprescindíveis para a vida em coletividade. Nosso atual modelo cada vez mais acolhe as diferenças e ajuda a disseminar a percepção de que homens e mulheres são iguais em sua humanidade, direitos e deveres, mas diferentes e complementares na sua natureza.
E é isso que se deve esperar das políticas públicas do setor: menos interferência político-ideológica imposta, mais espírito sócio coletivo e estímulo aos valores sociais. Que a educação repassada aos nossos filhos seja capaz de torná-los pessoas compromissadas, não somente consigo e com suas vontades pessoais e profissionais. Mas que possa estimulá-los a crescer e se formar adultos conscientes do seu papel também na família e na comunidade, como cidadãos responsáveis que saibam exigir os seus direitos e cumprir com seus deveres.
 Francisco Vale Júnior é advogado, urbanista e ex-professor e deputado estadual (PSD)

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