Uma das tarefas mais complexas e de
maiores exigências hoje é a de educar um ser humano, principalmente em virtude
de tanta informação à disposição e maneiras cada vez mais simples de obtê-las.
Por se tratar de um processo que envolve as emoções, valores sociais e,
principalmente, nossas ações cotidianas, nossa educação é influenciada e quase
sempre reflete as práticas que a sociedade expõe às suas crianças.
Assim, nossos exemplos e gestos,
desde a forma de vestir e conversar até a maneira como nos expressamos e os
ambientes que frequentamos, são fatores influenciadores na formação intelectual
e definição da identidade dos nossos filhos. As instituições, comunidades e
pessoas próximas delineiam diariamente todos os aspectos da vida das nossas
crianças, inclusive na sua sexualidade em formação.
Por enxergar isto é que aos poucos,
durante as últimas décadas, organizações internacionais e nacionais têm
estimulado modificações não apenas nas legislações, mas na execução de
políticas públicas, instrumentalizando os direitos humanos. E, no caso
brasileiro, a última e uma das mais audaciosas tentativas tem sido a inclusão
da expressão “gênero”, de forte teor e enfoque ideológico, nos Planos
Municipais e Estaduais de Educação, legislação que define as prioridades do
modelo educacional para os próximos dez anos.
Por mais que se tente negar, o
objetivo da ideologia de gênero é muito claro e específico: interferir na
construção da identidade sexual das crianças totalmente fora do controle dos
pais, seguindo algo que já se tenta fazer em países europeus. Implementar um
modelo que recomenda à escola não distinguir os alunos em meninos ou meninas,
desconsiderando as diferenças reais e óbvias entre homens e mulheres, e
buscando anular as aptidões naturais de cada sexo.
Por esta razão minha inquietação não
é apenas de homem público já que, com três filhos em idade escolar, sei que as
crianças vivenciam um processo de aprendizagem cada vez mais rápido e a
construção da identidade é uma das maiores preocupações, tanto para a escola
quanto para família. E neste ponto encontra-se outra grave questão dessa
tentativa, que quer renegar o papel da família – estabelecido inclusive
constitucionalmente – desconsiderando a responsabilidade do núcleo familiar
nesse processo e tratando como normalidade algo que não o é em nosso país.
A família é a célula mãe da
sociedade, única e diferente de qualquer outro grupamento humano por se tratar
da nossa esfera social introdutória, em que vivemos a maior parte da nossa
existência e que possui laços indissolúveis. O afastamento do núcleo familiar
da formação dos próprios filhos, ou mesmo a competição de conceitos com a
educação recebida na escola não é o caminho para a construção de uma sociedade
melhor e mais justa.
Não se impõe algo dessa natureza sem
o conhecimento da população sobre o seu conteúdo, ainda mais num assunto que há
anos vem sendo tratado em um controverso processo que passa inclusive por um
jogo de “esconde-esconde” político-ideológico que apenas faz mal ao cidadão.
Que a nossa sociedade tenha toda clareza do que se trata e possa discutir com
seriedade antes que o poder público adote um modelo que propõe, entre outras
coisas, que até o banheiro seja compartilhado por ambos os sexos, sem diferenciações.
Além da tentativa de desconstruir o
fator biológico, determinante na construção de homens e mulheres como seres
humanos, essa linha ideológica com sua ênfase no individual e no hedonismo
ignora a importância de outros valores imprescindíveis para a vida em
coletividade. Nosso atual modelo cada vez mais acolhe as diferenças e ajuda a
disseminar a percepção de que homens e mulheres são iguais em sua humanidade,
direitos e deveres, mas diferentes e complementares na sua natureza.
E é isso que se deve esperar das
políticas públicas do setor: menos interferência político-ideológica imposta,
mais espírito sócio coletivo e estímulo aos valores sociais. Que a educação
repassada aos nossos filhos seja capaz de torná-los pessoas compromissadas, não
somente consigo e com suas vontades pessoais e profissionais. Mas que possa
estimulá-los a crescer e se formar adultos conscientes do seu papel também na
família e na comunidade, como cidadãos responsáveis que saibam exigir os seus
direitos e cumprir com seus deveres.
Francisco Vale Júnior é advogado, urbanista e ex-professor e deputado
estadual (PSD)

Nenhum comentário:
Postar um comentário